— Dione, qual livro você indica para as pessoas lerem?
— Nenhum.
— Nenhum?
— Nenhum. Indico que as pessoas escrevam.
— E quem vai ler o que as pessoas escrevem?
— O livro certo (e o errado) sempre chega ao destinatário.
— E se o livro chegasse através de sua indicação?
— Continuo indicando o silêncio e a escrita. É este o livro que indico.
— Você está dizendo que é anti-literatura?
— Não. No entanto, muito já foi dito. Menos o que você tem a dizer.
— Mas a leitura engrandece o homem.
— Concordo. Quem me acompanha vive lendo, porque eu escrevo um livro por dia. Às vezes esse livro tem uma frase, às vezes é um texto completo.
— Então, você indica seus livros, Dione?
— Indico. São ótimos. Os que já lancei por conta própria e os próximos.
— Você está se contradizendo?
— Não. São perguntas diferentes. Não indico ninguém a ler livro algum. Mas, se alguém me pergunta se indico meus livros, indico sim. Eu não vou dizer: “Leia Poemas Bêbados”. Eu digo: se for da sua vontade, leia meus livros.
— Qual é a diferença?
— O título. As palavras têm poder. E tudo começa pelo título de um livro. Ele é o chamado. Já tem destinatário.
— Uma pessoa pode ler um livro por indicação sua, não pode?
— Pode. Mas eu não indico. Indico que a pessoa viva a sua vida e escreva sobre o que bem entender. Não indico que nenhuma pessoa leia A ou B. Entendeu?
— Acho que sim. E qual livro seu você indicaria para mim?
— O primeiro não lançado.
— E como eu vou achar?
— Não acha.
(Continua).